Abri os olhos. E aí? Relógio da sala mostrando os segundos, chuva que cai mansa lá fora, o barulho do aquário (sem peixe, o último morreu e percebendo minha incapacidade de cuidar de um ser tão pequeno, resolvi fazer o aquário de fonte), e eu.
Eu e meus olhos, e minha pele, e meus ouvidos, e minha respiração. Eu comigo mesmo. Então me veio o vazio de estar só. São sete bilhões de pessoas no mundo... como poderia eu estar só, no vazio do meu quarto, ouvindo um relógio e olhando um aquário sem peixe?
Na carteira, uns trocados... foi quando lembrei que quando eu era adolescente, resolvi ser escritor e eu achava que eu ia ser phoda, é PHoda mesmo, com pêagá. Afinal, as palavras vinham até mim como mágica, e eu não tinha medo de me aventurar. Eu achava que todo mundo ia gostar do que lesse que eu ia vender milhões de exemplares de livros, e que iam ligar aqui em casa pedindo pra escrever sobre isso ou aquilo. Bosta nenhuma. Alice cresceu e acordou do sonho!
Primeiro aquela vontade imensa de colocar o rabo entre as pernas e pedir o colo da mamãe. E fui! Só que ela não me deu colo. Daí que eu me senti o menor cara do mundo: nem minha mãe queria me dar moral! Será que eu podia ser tão insignificante assim no planeta Mundo que nem a criatura que me gerou podia me dar cinco minutos de fama? Perguntando o motivo pelo qual ela não queria me dar o colo tão desejado, ouvi a dura resposta: Por que se eu te der colo agora, você vai continuar sendo insignificante. Nessa hora eu senti o que era ser Maísa: Meu Mundo Caiu. Ou o que sobrava dele.
Tirei o rabo das pernas e voltei pra casa com aquela informação. Tinha que digerir aquilo. O que é continuar sendo insignificante? Comprei uma cerveja, sentei na minha cama, vi fotos antigas, lembrava da infância, dos amigos que já se foram e também dos que estão aqui até hoje mas parece que se foram junto com os outros, lembrava da escola, da garota que eu fui apaixonado desde a quarta série até o terceiro colegial (e ela não sabe até hoje, porque eu sou um bosta!hahaha). Lembranças da minha primeira transa em que meu coração batia tão forte que dava pra menina ter certeza que ERA a primeira vez. Acho que por isso ela sumiu no dia seguinte... e eu achava que ela ia ser meu último amor. Depois dela já tive tantos últimos amores...
Chorei tanto na minha cama que quando o olho resolveu secar, e eu percebi que meu lençol tava encharcado de choro, ainda pensei “porra, agora além de fracassado e insignificante virei viado!”. Foi aí que um fenômeno completamente estranho tomou forma e saiu pela minha boca: eu gargalhei até quase me mijar nas calças.
Acho que foi mesmo uma resposta de Deus. Um riso involuntário que me fez acordar pra vida. Aí eu volto lá no começo do texto quando eu tava falando que abri o olho e fiquei ouvindo o tic tac do relógio, e o aquário sem peixe. Não tinha peixe porque percebi que antes de cuidar do peixe, tenho que cuidar de mim. Não tenho um puto no bolso mas tô feliz de poder fazer o que eu amo. O telefone aqui de casa não toca, mas ontem voltando pra casa uma adolescente me parou dizendo que me tem como livro de cabeceira.
Descobri que quando a gente acha que tá na merda, que a vida é um lixo, que nada vai se resolver, que to sem amor, sem amigos, sem grana, e na chuva sem guarda-chuva com all star furado, é aí que a gente percebe que precisamos crescer. Urgentemente. Crescer é se entender, se aceitar, e principalmente aproveitar a merda pra fazer adubo. Temos todos nosso pedaço de significância no Mundo.
Mas principalmente, hoje descobri que phoda, PHoda com pêagá mesmo, é minha mãe.